Análise: Seedorf é cerebral, e Flu deixa a bola com quem não decide
Fluminense tem muito mais posse de bola, mas não sabe o que fazer com ela. Seedorf, solto, é o jogador mais ativo na final
O jogador do Fluminense que mais tocou na bola na decisão da Taça Rio,
neste domingo, foi Jean, um volante. O segundo foi Digão, um zagueiro. O
terceiro foi Leandro Euzébio, outro zagueiro. O quarto foi Edinho, mais
um volante. Ter 57% de posse (sete minutos a mais do que o adversário)
foi inútil para os tricolores. A bola circulou entre aqueles que não
decidem. E aqueles que decidem não foram participativos no Flu. Agora se
observe o contrário: no Botafogo, quem mais encontrou a bola foi
Clarence Seedorf. Não por acaso, o Alvinegro venceu por 1 a 0 (veja os melhores momentos no vídeo acima). Não por acaso, é o campeão carioca de 2013.
A
movimentação de Seedorf: pela esquerda no primeiro tempo, homem mais
avançado sem a bola e pela direita na etapa final (Foto: Reprodução)
Sem figuras como Fred e Deco, faltaram protagonistas ao time derrotado
neste domingo. O Fluminense não teve um Seedorf. O Botafogo teve. E de
sobra. Oswaldo de Oliveira deixou o holandês flutuar à vontade em campo.
No primeiro tempo, o camisa 10 pendeu mais para a esquerda; no segundo,
caiu mais pela direita; quando o time se defendeu, ficou centralizado,
como homem mais avançado, solto para ser o cérebro de eventuais
contra-ataques (confira alguns momentos da movimentação do jogador no vídeo acima).
Afinal, era o Fluminense quem tinha a necessidade de buscar a vitória a
todo custo – já que o empate servia ao Botafogo. Consequentemente, era
natural que sobrassem espaços para os alvinegros. Abel Braga preferiu
cuidar de Seedorf com marcação setorizada. Não colocou ninguém grudado
nele. Assim, mesmo em uma tarde menos brilhante do que várias outras que
já teve, o holandês mandou no jogo.
Resultado: o Botafogo foi soberano em campo. Foi muito mais consciente.
Um exemplo: teve 11 finalizações, contra cinco do Tricolor. E
ressalte-se novamente: mesmo tendo sete minutos a menos de posse de
bola.
VER VÍDEO AQUI
A defesa do Botafogo venceu o ataque do Fluminense. Com sobras. Por
baixo e por cima. Na largada do jogo, por exemplo, quando tentou
encaixotar o adversário em seu campo defensivo, o Tricolor teve três
escanteios seguidos. Mesmo com bons jogadores de bola parada, errou
todos (confira no vídeo ao lado).
No decorrer da partida, ficou evidente também o bom posicionamento do
sistema de proteção alvinegro. Foi gritante a dificuldade do Fluminense
para chegar nas proximidades da área adversária – o que explica a
participação exagerada de zagueiros e volantes com a bola.
O Botafogo teve 32 desarmes na partida, quase o triplo do rival (veja, no vídeo ao lado, alguns lances de supremacia da marcação sobre o ataque do Flu).
Especialmente no segundo tempo, o Fluminense chegou a irritar a torcida
ao perder uma bola depois da outra – só Bolívar teve cinco vitórias
pessoais na etapa final. Como consequência, cedeu contra-ataques aos
alvinegros. Foram quatro para os novos campeões estaduais, contra nenhum
a favor dos atuais campeões brasileiros.
Rhayner como escapatória
As dificuldades do Fluminense também passaram pela tarde discreta de
Wagner e Thiago Neves. Com isso, a principal via de acesso dos
tricolores ao ataque foi Rhayner. Os comandados de Abel Braga tiveram
apenas duas finalizações no primeiro tempo, ambas com o atacante. O Flu,
muito por causa disso, ficou mais propenso a investir pela esquerda de
ataque do que pela direita. Bruno apareceu muito pouco pela lateral.
Alçou apenas uma bola na área. Do outro lado, Carlinhos também não foi
dos mais participativos - o que evitou um desempenho ainda melhor de
Rhayner.
Seedorf contra Wagner
Seedorf com a taça: não foi brilhante, mas chamou
o jogo na final (Foto: Satiro Sodré / Agif)
o jogo na final (Foto: Satiro Sodré / Agif)
A ausência de um protagonista no Flu, com a consequente sobrecarga nos
volantes, fica evidente quando são comparados os rendimentos de Seedorf e
Wagner. O holandês teve quase o dobro da posse de bola do meio-campo
adversário: 2m52seg contra 1m33seg. O camisa 10 alvinegro finalizou a
gol três vezes, enquanto Wagner não arriscou um chute sequer.
Seedorf, solto para se movimentar, também foi à linha de fundo quatro
vezes, contra nenhuma de Wagner, mais centralizado. O gringo alçou três
bolas na área. O jogador do Flu arriscou apenas uma. O holandês, porém,
errou mais passes: dez dos 40 que deu em campo. O meia tricolor acertou
30 e errou seis.
O domingo de protagonismo (mais um) de Seedorf, mas de poréns técnicos,
ganhou um resumo aos 35 minutos do segundo tempo. Foi o holandês o
responsável por cobrar o pênalti que, naquele momento, asseguraria a
vitória alvinegra. Quem mais seria? E ele errou.
Mas não fez falta. O Fluminense seguiu usando pouco suas figuras
criativas, a defesa do Botafogo seguiu bem postada, o jogo manteve seu
panorama. E a equipe mais consciente foi campeã.
Análises rápidas:
* Bolívar se firma como uma das referências do Botafogo. Contra o
Fluminense, não fez faltas, tampouco errou passes. Ainda teve seis
desarmes.
* Thiago Neves ainda não está em seu ponto ideal. No segundo tempo, ele
deu sinais de cansaço. Acabou errando cinco dos 19 passes que deu no
período. Não conseguiu ajudar a equipe.