Por que caiu? Caiu por quê? Dossiê Botafogo III: surrealismo e descontrole
Orçamento que contava com premiação de todos os torneios do ano, aumentos para a "turma da praia", adeus de Seedorf e fiasco na Libertadores: a queda se desenha

A
terceira reportagem da série começa no fim de 2013, quando a falta de
planejamento do Botafogo transbordou. O Departamento de Futebol resolveu
ignorar solenemente os pedidos de contenção de despesas do financeiro.
Em vez de cortar custos, o futebol resolveu aumentá-las e produziu um
orçamento surrealista. Em janeiro, os salários já estavam em atraso e a
volta do clube à Libertadores virou um pesadelo.
CAPÍTULO III
Dossiê Botafogo

CAPÍTULO IV
No ar: 18/12

1 - O orçamento surreal
Apesar do caos
financeiro, a vitória no estadual e a vaga na Libertadores deram argumentos
para que o departamento de futebol vendesse sucesso. O Botafogo, afinal, tinha
voltado à Libertadores depois de 18 anos. Em vez de assumir os erros, Sidnei e
Chico resolveram dobrar a aposta e produziram um orçamento que beirava o inacreditável. Previram premiações para todos os títulos do ano: estadual,
Copa do Brasil, Brasileiro, Libertadores e Mundial.
– Fui no
Corinthians pegar o orçamento deles do time campeão do mundo. Os caras
conseguiram fazer um orçamento maior que aquele – comentou um dirigente.
Em e-mail enviado
a vários diretores, o diretor executivo Sérgio Landau reclamou que o orçamento
enviado pelo futebol previa gastos mensais de R$ 11,7 milhões. Só em salários e
direitos de imagem, a previsão mensal era de R$ 7 milhões. O departamento financeiro
tinha informado ao departamento de futebol e ao presidente, em outubro, que o
clube estava quebrado e com aquele orçamento seria bem pior. As despesas do
futebol precisariam ser reduzidas para R$ 3,7 milhões. Foi ignorado.
– O presidente de
fato do primeiro mandato foi o Landau. No segundo, Sidnei fez a cabeça do
Maurício para assumir de fato e esvaziar o Landau. O futebol não respondia a
mais ninguém.
O Conselho Fiscal rejeitou o orçamento
surrealista e exigiu um novo. Landau avisou que, mesmo se os gastos
ficassem em R$ 3,7 milhões, o clube precisaria captar R$ 40 milhões no
mercado. Anotou ainda que as despesas do futebol no último trimestre de
2013 tinham ficado numa média de R$ 5 milhões.

Orçamento do Botafogo previa premiação para todos os campeonatos da temporada (Foto: Vicente Seda)
2 - Reajustes
O
Departamento de Futebol não apenas ignorou a recomendação de corte de
custos, como resolveu aumentá-los. Entre dezembro e janeiro, um festival
de aumentos trouxe alegria para antigos e novos membros da comissão
técnica. Em dois casos, funcionários criaram
empresas e passaram a ganhar via CLT e como prestadores de serviço,
situação
que o departamento jurídico alertou que era ilegal.
Isso gerou um
desconforto em Landau, que havia criado um comitê de gestão responsável por
normatizar as alterações salariais. Como o presidente autorizava tudo o que o
futebol fazia, Landau acabou com todos os comitês. Irritado com o Futebol
e adoentado, o vice financeiro, Carlos Alberto Calumby, também pediu
exoneração. Chico Fonseca assumiu também a vice-presidência financeira.

Sérgio Landau em coletiva: fim dos três comitês após reajustes (Foto: Satiro Sodré / AGIF)
3 – "Gente de cinza"
Nada menos que 18
profissionais foram demitidos entre 2013 e 2014. Em janeiro, o departamento
médico foi demitido, junto com o fisioterapeuta Altamiro Bottino, o fisioterapeuta Alex Evangelista e o analista
de desempenho Marcelo Xavier. Os ex-técnicos dos juniores Anthoni Santoro e
Jair Ventura também entraram na barca. Criou-se uma flagrante divisão entre “o pessoal da base” e os profissionais restantes
na comissão técnica – como o preparador de goleiros Flavio Tenius, que havia
resistido por conta de sua ligação com Jefferson.
– Eles chegaram da
base com marra achando que sabiam tudo porque ganharam um campeonato de
juniores. E não sabiam nada. Não sabiam que profissional é diferente – disse um
membro da comissão técnica.
Ainda em janeiro, Loureiro promoveu
uma série de contratações. A comissão passou a ter três
auxiliares-técnicos: Eduardo Barroca e Flávio Oliveira e
um dos fiéis escudeiros de Loureiro, o preparador de goleiros Christiano
Fonseca. Outros homens de confiança de Loureiro, Marcos Pinheiro (o Mineiro) e
Cláuber Antunes, também foram promovidos para o profissional. Apesar das
demissões, a comissão técnica continuava inchada.
– Tinha mais gente
de cinza (comissão) do que de azul (jogador) no campo – comentou um dirigente.

Flavio Tenius treina Jefferson: preparador resistiu por ligação com o goleiro (Foto: Thales Soares / Globoesporte.com)
4 – Praia rica
A
rubrica "Pessoas Jurídicas" do orçamento de futebol traz uma noção da
quantidade de aumentos ocorridos entre dezembro de 2013 e janeiro de
2014.O clube gastou R$ 291.050 em dezembro com PJs do futebol. Apesar da
recomendação de corte de custos, em janeiro esse número pulou para R$
481.474 em janeiro. Em abril chegou a R$ 595.288.
Os aumentos da chamada "turma da praia" entre 2009 e 2014 chamaram atenção. Eduardo Hungaro, que chegara ao clube em 2009 ganhando R$ 2 mil, saltara para R$ 27 mil e em janeiro de 2014 passou a R$ 65 mil já como PJ (porque virou treinador - em sua defesa, diga-se que certamente era um dos salários mais baixos da série A). Christiano Fonseca pulara de R$ 2 mil para R$ 18 mil. Ele e Ney Souto passaram a ganhar via CLT e também via PJ. Mineiro pulou de R$ 1,5 mil e passou a ganhar R$ 6 mil como auxiliar de coordenação administrativa. Felipe Arantes começara com R$ 2 mil e em 2014 já ganhava R$ 9,5 mil no cargo de auxiliar-técnico. Seu irmão, Bernardo, tinha pulado de R$ 5 mil para R$ 21 mil.
Os aumentos da chamada "turma da praia" entre 2009 e 2014 chamaram atenção. Eduardo Hungaro, que chegara ao clube em 2009 ganhando R$ 2 mil, saltara para R$ 27 mil e em janeiro de 2014 passou a R$ 65 mil já como PJ (porque virou treinador - em sua defesa, diga-se que certamente era um dos salários mais baixos da série A). Christiano Fonseca pulara de R$ 2 mil para R$ 18 mil. Ele e Ney Souto passaram a ganhar via CLT e também via PJ. Mineiro pulou de R$ 1,5 mil e passou a ganhar R$ 6 mil como auxiliar de coordenação administrativa. Felipe Arantes começara com R$ 2 mil e em 2014 já ganhava R$ 9,5 mil no cargo de auxiliar-técnico. Seu irmão, Bernardo, tinha pulado de R$ 5 mil para R$ 21 mil.
Mas os aumentos não ficaram apenas para os
praianos. O analista de desempenho Alfie Assis, que era responsável
pelas apresentações em Power Point da base, entrou no clube em 2009,
como estagiário, ganhando R$ 150. Em 2014, já como profissional, tinha
vencimentos de R$ 5.914. Um aumento de mais de 3.000% em cinco anos num
clube sem recursos.

Eduardo Hungaro comanda treino: do salário inicial de R$ 2 mil a R$ 65 mil em janeiro de 2014 (Foto: Vitor Silva/SSPress)
5 - Ilha da fantasia
A
situação financeira do clube só piorava. O clube tinha dívidas imensas
com os empresários Eduardo Uram e Carlos Leite. Devia também ao fundo do
banco BMG e buscava empréstimos de toda sorte. O fluxo de caixa já era
negativo e as penhoras tornavam a gestão praticamente impossível. O
departamento financeiro fazia malabarismo para conseguir recursos e
antecipações. Enquanto isso, o Futebol aumentava seus gastos. Em
dezembro de 2013, a vice-presidência de futebol gastou R$ 4,9 milhões.
Em janeiro, os gastos pularam para R$ 5,6 milhões. Em fevereiro chegaram
a R$ 5,8 milhões.

Carlos Leite em sua empresa: Botafogo acumula dívidas imensas com o empresário (Foto: Janir Júnior)
6 – Adeus de
Rafael Marques e Seedorf
Se o time já se
enfraquecera em 2013, o início de 2014 foi ainda pior. Seedorf parou de jogar e
foi ser técnico do Milan. Sidnei Loureiro confidenciou ao repórter Thales
Soares.
– Já sabíamos que
o Seedorf ia parar. Por isso nos planejamos antes e trouxemos o Jorge Wagner.
Outro que saiu foi
Rafael Marques. Antes criticado por Montenegro e Loureiro, ele tinha se tornado
um dos principais jogadores do time em 2013. Foi autor do gol do título estadual.
Acabou indo para a China.
– Eu não queria
sair, mas todo mundo está saindo e eles não vão pagar ninguém – confidenciou
Rafael a um amigo.
Além de Jorge Wagner,
o clube foi atrás de reforços. Sem caixa e devendo a empresários, o clube
aceitou ofertas como os gêmeos Alex e Anderson, encaixados por Eduardo Uram. E
uma série de jogadores em baixa foram contratados. Chegaram os argentinos Ferreyra
e Bolatti, Wallyson, Junior Cesar, Airton e Rodrigo Souto. Todos, sem exceção,
estavam na reserva de seus times.

Seedorf se emociona na despedida do Botafogo: meia optou por virar técnico no Milan (Foto: Satiro Sodré / SSPress)
7 – O gigante voltou
A temporada começou com uma derrota. Com Rodrigo Souto como titular e Ferreyra no ataque, o time perdeu para
o Deportivo Quito na altitude por 1 a 0. No jogo de volta, mais de 50
mil alvinegros encheram o Maracanã, fizeram um belíssimo mosaico e o
time derrotou os fraquíssimos equatorianos por 4 a 0 – com dois gols de
Wallyson.
O time se classificou para a fase de grupos – o que
valeria a premiação de R$ 200 mil para o treinador Eduardo Hungaro. E
estreou bem contra o San Lorenzo, vencendo o time argentino por 2 a 0
também no Maracanã. Mas a partir daí o time fraquejou. Fora de casa
empatou com os chilenos do Unión Española e perdeu no fim para o
Independiente del Valle.
Depois de vitória suadíssima contra
os equatorianos em casa, o time precisava apenas da vitória contra o
Unión para garantir a vaga nas oitavas de final. Irritados com o atraso
de salários e promessas não cumpridas, os jogadores ameaçaram entrar em greve antes
da partida contra o Union Española, no Maracanã. O clube dominou mas
acabou perdendo num pênalti mal assinalado. A classificação passou a
depender de um empate contra o San Lorenzo na Argentina. Em Buenos
Aires, o time foi atropelado por 3 a 0.
Os dirigentes
culparam a “postura dos atletas” pelas derrotas – mas sem recursos e com
100% das receitas penhoradas, que punições seriam possíveis?

Torcida do Botafogo faz mosaico gigante: alegria pela volta à Libertadores (Foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo)
8 - O pior estadual da história
A
“turma da base”
convenceu Hungaro a escalar o time reserva no estadual e priorizar a
Libertadores
– contra o conselho dos outros membros, como Barroca. Se time titular já
era
fraco, o reserva era péssimo. Sem talento nem organização, o Bota fez a
pior campanha
de sua história. Ficou em nono lugar com 17 pontos – atrás de
Cabofriense, Boavista, Macaé, Friburguense e Nova Iguaçu. Em 15 jogos
teve quatro vitórias, cinco empates e seis derrotas. Fez meros 16 gols e
tomou 17 – saindo do Estadual com saldo negativo. Com o duplo fracasso,
a pressão sobre Eduardo Húngaro se tornou insuportável.

Botafogo perde para o Macaé no Carioca 2014: pior campanha da história (Foto: Carlos Moraes/Agência Estado)
9 – Corte seletivo
Em
abril, a tensão
no futebol era imensa. Os salários seguiam em atraso e os jogadores
começavam a se desesperar. Pressionado por Landau e pelo financeiro, o
departamento
teve que cortar custos. Loureiro demitiu vários auxiliares que tinha
contratado
em janeiro, como Barroca e Flavio Oliveira. Para atingir
Jefferson, dispensou Flavio Tenius, trazendo para seu lugar o
ex-treinador do
Fluminense e do Grêmio Victor Hugo, ligado a Christiano Fonseca.
Esses cortes,
porém, não atingiram os homens próximos de Loureiro: o próprio Fonseca, Cláuber
e Mineiro. Todos continuaram empregados. E Duda Hungaro, mesmo rebaixado, continuou
ganhando o mesmo salário.
– Ele ganha R$ 65
mil pra carregar prancheta – dizia um membro da diretoria.
Eliminado
do estadual
e da Libertadores, o clube contratou Vagner Mancini para o Brasileiro. E
trouxe
dois auxiliares: Mauricinho e Régis. Com isso, Christiano Fonseca também
foi
rebaixado. Deixou de ser auxiliar técnico e virou novamente preparador
de goleiros. Ou auxiliar de prepardor de goleiros, já que Victor Hugo
tinha sido contratado para o cargo. Mas seu salário foi preservado.

Botafogo perde o San Lorenzo na Argentina e é eliminado da Libertadores (Foto: Juani Roncoroni/Agência Estado)
9 – O amistoso que
não foi
Sem resultados no
campo, Loureiro voltou suas baterias para os executivos do clube. Internamente,
dizia aos jogadores que o financeiro prometia recursos que nunca chegavam. O
diretor Marcelo Murad viajou para a Argentina para ver o time ser eliminado da Libertadores
contra o San Lorenzo, e o clima ficou tenso, porque jogadores reclamaram de sua
presença.
O clube acertou um
amistoso por R$ 150 mil contra o Botafogo-PB. O dinheiro seria usado para pagar
uma intertemporada em Saquarema, no CT da seleção de vôlei. Os jogadores
informaram que não iriam jogar na Paraíba. Loureiro e Assumpção resolveram demitir Bolívar, considerado o líder da
insurreição. Informaram ao empresário do atleta.
Bolívar, que
ganhava R$ 100 mil mensais, tinha renovado por R$ 360 mil em dezembro de 2013,
algo que havia assustado o departamento financeiro. Quatro meses depois seria
demitido?
– Eles disseram que querem me mandar embora.
Vamos ver se é isso mesmo – disse Bolívar.
Os jogadores se
reuniram e convocaram uma reunião com o presidente e a diretoria no Engenhão.
– Se ele sair, sai
todo mundo – disse um dos líderes do elenco.
Desmoralizados, os
dirigentes engoliram em seco e tiveram que chamar o jogador de volta. Não havia dúvidas sobre quem mandava no vestiário.

Bolívar se refresca: demitido e chamado de volta após cancelamento de amistoso (Foto: Satiro Sodré / Botafogo)
10 – Landau x
Loureiro
O clima entre
Sidnei Loureiro e Sérgio Landau ficou insustentável. Nos bastidores, os dois se
metralhavam mutuamente. Loureiro tinha escolhido a única briga que não podia
ganhar. Landau era o executivo de confiança de Assumpção, com uma teia de
relações que ia da CSM (ex-Golden Goal), operadora do sócio-torcedor do clube,
até os donos das novas arenas do futebol brasileiro – em especial a Odebrecht,
principal empresa do Consórcio Maracanã.
Sem moral com os
jogadores e com o time em frangalhos, Loureiro percebeu que ficaria com a conta
do fracasso. No meio de julho deixou o clube. E saiu atirando. Em entrevista gravada
ao GloboEsporte.com, Loureiro disse que o Futebol tinha cumprido as
metas pedidas pelo financeiro, tendo cortado 30% das folhas dos
jogadores e da comissão técnica. E bateu firme no diretor executivo
Sérgio Landau e no diretor financeiro
Marcelo Murad.
– Eles prometiam, mas
o dinheiro nunca chegava.
Landau ficou
enlouquecido. No dia 25 de julho, mandou um e-mail
desabonador para Assumpção cobrando providências e disse que iria
processar
Loureiro. Na mensagem, ele rebateu ponto a ponto as declarações do
ex-gerente. Disse que, ao contrário de cortar, os gastos do futebol
foram de R$ 6.052.000,00 em média no primeiro quadrimestre de 2014 -
muito acima dos recomendados R$ 3,7 milhões e 64% acima do que fora
aprovado pelos Conselhos Fiscal e Deliberativo do clube. Mais: disse que
uma das causas do desvio
orçamentário do departamento de futebol foi o aumento que Sidnei deu a
si mesmo
– de R$ 42 mil para R$ 65 mil entre 2013 e 2014.
Segundo
Landau,
o ex-gerente promovera uma “verdadeira sangria nos cofres alvinegros” ao
conceder aumentos generalizados no departamento "contrariando o que
determinava o departamento financeiro". O e-mail disse também que Sidnei
não
tinha “qualquer histórico de sucesso no futebol profissional” e que
"reconhecidamente não tinha moral alguma com jogadores". E bateu forte:
"Embora
fosse clara a falta de capacidade do ex-gerente para o exercício de
função tão relevante para o Botafogo, jamais poderia esperar que a menos
de um ano do término deste mandato, durante o momento mais crítico da
atual gestão, ele simplesmente colocasse seu cargo à disposição, sob o
argumento de estar fazendo isso em benefício do Botafogo, quando todos
sabem que, na verdade, ele sempre teve sua presença e autoridade
contestada pelos profissionais do futebol. Lembro que na comemoração do
título de 2012 o nosso técnico citou o nome de vários colaboradoes e
nunca o dele"
O diretor-executivo foi mais longe: afirmou
ser contra o pagamento da multa rescisória de Loureiro.

Sidnei Loureiro, em entrevista ao GloboEsporte.com: fortes críticas após sair do Botafogo (Foto: Gustavo Rotstein)
11 – A sinuca de
Assumpção
O e-mail de Landau
deixou Assumpção em situação difícil. Ele não podia brigar com Landau, seu
grande parceiro no clube. Mas também tinha lealdade a Loureiro. O presidente
resolveu sair pela tangente. Deu entrevista para a Rádio Globo dizendo que
tinha, sim, demitido Loureiro – o que garantiria o pagamento da multa
rescisória. Fez elogios ao trabalho do ex-gerente, mas disse que não concordava
com suas críticas ao financeiro.
Meses depois, em
setembro, em entrevista ao Esporte Espetacular, Maurício Assumpção diria que o
departamento de futebol tinha feito um orçamento realista para o ano. Sua
declaração literal.
– Sabendo dos
problemas que iríamos enfrentar por conta da questão do Ato Trabalhista e das
penhoras fiscais, fizemos um orçamento do futebol melhor que o de 2013. Em novembro de 2013, o orçamento do futebol,
que contempla base e profissional, era de R$ 6,8 milhões. Em março de 2014 caiu
para R$ 3,6 milhões. E precisávamos de um time melhor do que tinha, pois estávamos
disputando a Libertadores. Sabíamos que não podia fazer isso.
Esses números de
Maurício tinham um problema: eram diferentes dos reais. O departamento de futebol
gastou R$ 4,8 milhões em novembro de 2013. Em março de 2014 o gasto foi de R$
5,6 milhões. Ou seja, R$ 800 mil a mais mesmo com as saídas de Oswaldo, Seedorf,
Rafael Marques e Renato.

Maurício Assumpção: sinuca de bico após desentendimento entre Landau e Loureiro (Foto: Satiro Sodré)
12 – Gottardo
Sidnei Loureiro
ficou um ano e quatro meses à frente do futebol profissional e pode botar no
currículo o estadual de 2013 e a vaga na Libertadores de 2014. Para o seu lugar,
Assumpção contratou Wilson Gottardo. O ex-zagueiro, capitão do time campeão
brasileiro em 1995, chegou falando que os atletas tinham que esquecer os
problemas financeiros.
– Em 1995, fui
campeão com cinco meses de salários atrasados.
Os jogadores
odiaram a declaração. Gottardo tentou convencer Jefferson a ser uma espécie de
“líder positivo”, dizendo que deveria ser exemplo. Jefferson não gostou muito, mas disse que iria tentar.

Wilson Gottardo volta ao Botafogo como dirigente: declaração pega mal com os jogadores (Foto: Vitor Silva / SSPress)
13 – O sumiço dos
uniformes
Mais de mil peças
de uniformes desapareceram do estoque do clube. Em um áudio que circulou pelo WhatsApp,
um funcionário pedia a outro para esconder uma caixa.
– O André está
indo aí conferir. Esconde aquela caixa que tem as minhas camisas por favor –
dizia a voz na gravação.
André, no caso,
era André Silva, que levou o caso até o presidente Maurício Assumpção. Ninguém
foi punido. Contra o Criciúma, o time quis usar camisas pretas, mas no
almoxarifado não havia mais nenhuma delas. Isso gerou um corre-corre interno, e
dois dias antes da partida uma caixa com os uniformes pretos reapareceu. Os
jogadores entraram em campo com eles, que teriam sido recuperados graças a
contatos com "milicianos". Um dos funcionários que "recuperou" as roupas era
justamente o dono da voz da gravação que circulou no clube.
– Se ficássemos
aqui mais um ano, eu comprava um apartamento – ele costumava dizer aos amigos.

Botafogo quase não consegue usar camisa preta contra o Criciúma após sumiço (Foto: Getty Imagens)
14 – O breve apoio
dos cardeais
Em julho, o
futebol tinha virado um deserto de dirigentes. Com a saída de Sidnei Loureiro,
Chico Fonseca desapareceu. Quem passou a tocar o dia a dia foi o vice
administrativo, André Silva, ao lado do recém-contratado Gottardo – que ainda
tentava encontrar algum clima.
Os cofres
alvinegros estavam vazios e não havia perspectiva de receita. Os atrasos já
chegavam a cinco meses em imagem e três na CLT – sem falar no FGTS. O clube
tentava estratégias, como recorrer ao apoio do Sindicato de Atletas. Mas este tem
as suas regras próprias de pagamento. Ao receber, priorizava atletas de acordo
com o salário, de cima para baixo. Isso deixou Lucas fora de um dos pagamentos –
e o lateral-direito, irritado, deixou o clube via justiça.
André Silva pediu
ajuda a Montenegro e ao executivo Durcésio Mello, que se preparava para se
candidatar à presidência. Ambos trouxeram a promessa de pagar os salários
futuros. Houve uma reunião dos cardeais com os atletas, e a promessa alegrou o ambiente.
O clube engatou alguns bons resultados e se afastou do Z-4. Mas os cardeais
pagaram apenas o mês de julho. Em agosto, o dinheiro já não entrou. E o clima começou a azedar de vez.

Lucas, em ação contra o Cruzeiro: lateral deixou o Botafogo após acionar Justça por salários (Foto: Agência Getty Images)
AMANHÃ: DOSSIÊ BOTAFOGO IV - Descontrole, demissões e rebaixamento