Por Humberto CottasNão se assustem, não quero de modo algum na frase-título, renegar o Botafogo pré-1948, que foi o Botafogo de Flavio Ramos, Mimi Sodré, Nilo Murtinho Braga, Carvalho Leite, Heitor Canalli, Martim Silveira, Tovar e Heleno de Freitas, além de vários outros grandes nomes, título e glórias.
O Botafogo pré-1948 já era o nosso Botafogo desde 1904 com os garotos do Largo dos Leões. Aliás, já era o nosso Botafogo desde 01 de julho de 1894, mesmo sem futebol, com o Club de Regatas Botafogo e a Estrela Solitária já presente.
Feitas essas ressalvas, quero passar a explanar o meu ponto de vista sobre o que foi 1948, tido para mim como o ano em que o Botafogo de Futebol e Regatas passou a ser o clube que realmente conhecemos e amamos de maneira tão incondicional, com todas as suas peculiaridades, místicas e histórias que o tornaram único no planeta com tantos fatos incríveis.
Por que considero 1948 tão emblemático assim? Vamos lá então tentar enumerar tudo que fez esse ano ter mudado o Botafogo definitivamente para o que é hoje em minha opinião.
Seguem 10 motivos:
1. Foi o primeiro ano sem HELENO DE FREITAS, o grande ídolo de toda a década de 40, vendido ao Boca Juniors da Argentina, o que provocou um clima de tristeza e pessimismo à torcida, com forte ameaça de crise. Por ironia, acabou campeão carioca após 13 anos de jejum (coisas de Botafogo...).
2. A única derrota de toda a campanha do título foi na estreia e logo por 4 a 0 para o São Cristóvão, dentro de GENERAL SEVERIANO e sob vaias implacáveis da torcida, provocando uma crise e total descrença no título. Nada mais pode ser classificado como “a cara do Botafogo” do que sair de um momento de depressão e transformar isso em glória. No vestiário, após o jogo, começou a ser mostrada com destaque a personalidade ímpar de CARLITO ROCHA, que exigiu cabeça erguida aos jogadores e profetizou que naquele ano o time conquistaria o título no gramado de General Severiano.
3. Era o primeiro ano do triênio de mandato de Carlito Rocha e com ele surgiram as gemadas, as grandes superstições, além de todo o charme, passionalidade e inúmeras peculiaridades que aquele fantástico Presidente trouxe ao clube.
4. Foi o ano do BIRIBA, nosso mascote mais famoso e responsável por algumas das histórias mais fantásticas que um time de futebol pode carregar. Com isso, passamos a ser identificados para sempre com cachorro e o animal passou a ser um dos nossos símbolos.
5. Foi o ano em que tivemos novamente um artilheiro do campeonato (o último havia sido Heleno em 42 e o próximo seria somente Dino em 54). Foi exatamente o grande OCTAVIO SÉRGIO DE MORAES, nosso camisa 10 (felizmente ainda vivo, morando em Copacabana e cheio de saúde), com 21 gols.
6. Foi o ano de estreia no Botafogo do maior ídolo de toda a sua história. Ninguém menos do que NILTON DOS SANTOS, aos 23 anos, que assumiu a titularidade da lateral-esquerda e assim ficou por toda a sua carreira. Começou logo sendo campeão e naquela época só era conhecido como “Santos”.
7. Foi o primeiro título com a ESTRELA SOLITÁRIA na camisa, símbolo do resultado da fusão que ocorrera em 1942.
8. Foi o primeiro e único título conquistado no Estádio de General Severiano após sua reforma de expansão, concluída em 1938. A taça foi brilhantemente conquistada na final com o Vasco (3 a 1), diante de um público estimado em 20.000 pessoas. Após 1950, os grandes jogos e decisões passaram a ser disputadas somente no Maracanã e nunca mais o Botafogo levantou algum troféu em General Severiano.
9. O fato de o time ter perdido seu maior ídolo (Heleno), fez o Botafogo ficar com um time sem grandes craques (Nilton Santos ainda era um atleta pouco conhecido, trazido da Ilha do Governador). No entanto, o nosso GLORIOSO liquidou os maiores adversários em confrontos diretos nos dois turnos: 5 a 2 no Fluminense (com o tricolor houve o único empate nos clássicos, 2 a 2 no segundo turno), 2 a 1 e 5 a 3 no Flamengo, 1 a 0 e 2 a 1 no América, 2 a 1 e 3 a 1 contra o Vasco. A ressaltar que o Vasco tinha o maior time do país na época – era a base da Seleção, Campeão Sul-Americano e com o Expresso da Vitória já atuando (tinha Barbosa, Danilo, Friaça, Jair, Chico e Ademir, entre outros).
10. Se não tivéssemos ganho em 48, possivelmente só ergueríamos outra taça no não menos brilhante ano de 1957. Seriam 22 anos de jejum, o que numa era pré-Garrincha, poderia ter tornado o nosso clube em algo menor do que é hoje, principalmente em termos de torcida e de reconhecimento.
Essas e outras, me levaram a concluir que 1948 foi “o ano do Botafogo”, o ano em que Carlito Rocha se notabilizou, surgiram nossas superstições e o Botafogo aprendeu a ser de fato um vencedor – com a Estrela Solitária no peito e sem o Heleno no time, ganhando incontestavelmente dos maiores rivais, dentro e fora do nosso campo. Graças a 1948 ter sido um ano glorioso, o Biriba ficou celebrizado e ficamos reconhecidos como cachorros.
Se 1948 não tivesse acontecido, talvez hoje não fôssemos “A CACHORRADA”.
Acho que por tudo isso, uma homenagem oficial do clube ao Octavio Moraes seria um ato excepcional, podendo (e devendo) ser estendida também ao Ávila e ao Juvenal, os outros ainda vivos se não me engano. Poderia ser uma homenagem com camisa comemorativa, com festa, busto, placas ou qualquer outra coisa. Fica aqui minha humilde sugestão às Direções de Comunicação Social e Marketing, até o momento muitíssimo bem desempenhadas por Beto Macedo e Marcelo Guimarães.
Enfim, registro aqui o meu MUITO OBRIGADO ao BIRIBA! MUITO OBRIGADO, CARLITO ROCHA! MUITO OBRIGADO, ZEZÉ MOREIRA! MUITO OBRIGADO a OSVALDO BALIZA, GERSON, NILTON SANTOS, RUBINHO, ÁVILA, JUVENAL, PARAGUAIO, GENINHO, PIRILO, OCTAVIO e BRAGUINHA!!!
Muito obrigado a todos vocês, que foram verdadeiramente “HERÓIS A CADA JOGO”!