Futebol no Suriname: ingresso a R$ 3, estádio vazio e 'Adriano' na pelada
Berço de craques, país tem liga fraca, que atrai só 30 torcedores a um jogo. Porém, povo é fanático pelo esporte, com direito a camisa do Imperador
Quarta-feira, 20h, Estádio Dr. Ir. F. Essed, em Paramaribo. Cerca de 30
pessoas ocupam a arquibancada para assistir ao jogo entre Leo Victor e
Excelsior pela Liga Nacional de futebol do Suriname. No campo de grama
sintética, os jogadores pecam pelos erros de passes e não empolgam os
poucos torcedores que se dispuseram a pagar R$ 3 pelo ingresso.
Quinta-feira, 18h, terreno com muita lama e pouca grama. Dois times de
moradores locais - um deles com a camisa 10 de Adriano, do
Internazionale de Milão - disputam uma animada pelada. O público nas
grades é maior do que o da partida oficial. A cena é comum pelas ruas da
capital do Suriname, retratando o contraste entre a paixão do povo
surinamês pelo futebol e a falta de estrutura da competição local.
O Suriname é conhecido por fabricar grandes jogadores. Clarence Seedorf,
hoje no Botafogo, é um dos principais exemplos. Nascido no país, ele se
naturalizou holandês, defendeu a seleção e times como Ajax – a
principal porta de entrada de surinameses -, Sampdoria, Real Madrid,
Internazionale de Milão e Milan.
Casacos do time sub-20 do Suriname secam em varal improvisado (Foto: Janir Jr / Globoesporte.com)
Davids é outro exemplo de jogador nascido no Suriname, que se
naturalizou holandês, defendeu a seleção e atuou em grandes times como
Juventus e Barcelona. Aron Winter trilhou o mesmo caminho. De Paramaribo
para o Ajax, seleção holandesa, Internazionale de Milão e Lazio.
Rudd Gullit, Rijkaard e Kluivert nasceram na Holanda, mas os pais são
do Suriname e também fizeram sucesso nos campos. Bossa Kluivert,
inclusive, tinha fama de artilheiro bem antes de seu filho Patrick
brilhar com as camisas de Ajax, Milan e Barcelona, entre outras.
A Federação Surinamesa de Futebol (SVB Surinaamse Voetbal Bond) foi
fundada em 1920 e filiou-se à Fifa em 1929. Apesar de estar na América
do Sul, integrou-se à Concacaf (Confederação da América do Norte,
central e Caribe). A justificativa é pelo fato de enfrentar adversários
do mesmo nível. Mesmo assim, a seleção surinamesa nunca se classificou
para uma Copa do Mundo.
E uma curiosidade: ao contrário do que acontece em muitos países, o
Suriname não aceita dupla nacionalidade, mesmo tendo sido colônia da
Holanda.
- O futebol local do Suriname já foi bom. O impacto dos surinameses no
futebol da Holanda foi muito grande. Seedorf é um nome que nasceu aqui.
Há outros que não nasceram aqui, mas os pais, sim, como Gullit,
Rijkaard. O time do Ajax já teve muita gente que nasceu aqui ou era
filho de um surinamês. Os anos passaram e vários motivos levaram o
futebol do Suriname a cair tanto. Acho que também tem a ver com a
atitude dos jogadores. Antigamente, eles treinavam os pontos fracos,
tentavam melhorar. Hoje, isso não existe, os caras estão preguiçosos,
treinam quando querem. Para ser um grande jogador, tem que dar duro –
analisou Desney Romeo, jornalista e apresentador do Top Sports, programa
esportivo da televisão surinamesa ABC.
Atualmente, a Liga Nacional do Suriname conta com dez times. O campeão
de forma antecipada da atual edição é o Robinhood, que detém 22
conquistas, sendo o que possui mais títulos no país. A Segunda Divisão é
composta por 12 equipes. Automaticamente, um time sobe e outro cai. Ao
término da competição, o segundo colocado da Série B enfrenta o
penúltimo da Série A e, caso vença, passa para o primeiro escalão,
rebaixando o adversário.
A reportagem do GLOBOESPORTE.COM acompanhou a partida entre Leo Victor
(de laranja) e Excelsior. Todos os jogadores têm outra profissão, já que
o futebol não é profissional. Os treinos acontecem, no máximo, três
vezes por semana. Os times não têm patrocínio.
Ao entrar em campo, os jogadores ouvem aplausos isolados. No campo de
grama sintética, a bola rola, mas a partida tem baixo nível técnico, com
muitos erros de passes e falta de disciplina tática. O Leo Victor abriu
o placar após bobeira da zaga adversária. Depois, o time de laranja
perdeu um pênalti, cansou e acabou cedendo a virada por 2 a 1. Nenhuma
rádio ou canal de televisão transmitiu a partida. Algumas chuteiras
coloridas, moda universal, calçam os pés dos jogadores.
Paramaribo possui dois estádios principais. Um deles leva o nome de
André Kamperveen, que foi jogador e capitão da seleção do Suriname na
década de 40. Depois de encerrar a carreira, ele foi membro do Comitê
Executivo da Concacaf e chegou a ser vice-presidente da Fifa. Kamperveen
foi assassinado em 1982, e uma estátua foi erguida em sua homenagem em
frente ao estádio que leva o seu nome.
Goleiro do Suriname foi ídolo do Remo
Goleiro François Thijm nasceu no Suriname
e defendeu o Remo por 10 anos (Foto:Reprodução)
e defendeu o Remo por 10 anos (Foto:Reprodução)
Uma história curiosa liga um jogador do Suriname ao Brasil. Nascido em
Paramaribo, François Thijm começou a carreira em times locais. Em 1961, o
Remo fez uma excursão à capital surinamesa, mas Arlindo, dono da camisa
1 do time paraense, não pôde viajar.
François era funcionário da Surinam Airways, que faz o voo
Belém-Paramaribo. Um gerente da companhia aérea sugeriu que o Remo desse
uma oportunidade ao goleiro surinamês.
François agarrou a chance e ficou no Remo por mais de dez anos. No
clube, também foi auxiliar técnico, massagista, chefe de delegação,
roupeiro, técnico, treinador de goleiros e coordenador.
No Campeonato Brasileiro de 1972, François exerceu as funções de chefe
da delegação, treinador, massagista, roupeiro e goleiro reserva ao mesmo
tempo.
Apesar da paixão pelo futebol, o maior feito do esporte do Suriname
aconteceu na natação. Anthony Nesty ganhou o ouro nos 100 metros
borboleta nos Jogos Olímpicos de 1988 e o bronze na mesma prova nos
Jogos Olímpicos de 1992. Essas são, até hoje, as únicas medalhas ganhas
pelo país nas Olimpíadas.
Em Londres, a delegação surinamesa terá apenas cinco atletas, que
treinam fora do país: Jurgen Themen e Kirsten Nieuwendam (atletismo), os
irmãos Chinyere Pigot e Diguan Pigot (natação) e Virgil Soeroredjo
(badminton).
Adriano na pelada em Paramaribo
Pelas ruas da capital do Suriname, as cenas não são muito diferentes
daquelas vistas em várias cidades brasileiras. Em um terreno com lama, a
bola vez ou outra para numa poça d'água. A disputa é acirrada. As
instruções e reclamações saem no dialeto local e em holandês. O tamanho
da trave que forma o "golzinho" é inversamente proporcional à vontade
dos jogadores.
Jules Vastni, 20 anos, veste uma surrada camisa do Internazionale de Milão. Às costas, o número 10 e o nome de Adriano.
- Sou fã do futebol brasileiro. Acompanho os campeonatos do Brasil,
Itália, Espanha e Inglaterra. Conheço os jogadores. Sei que Clarence
está no Botafogo, ele representa nosso país. Mas gosto mesmo dos
jogadores brasileiros - afirmou Jules.
E por que a camisa de Adriano?
- Se fosse tentar ser jogador, queria ser atacante. Adriano é forte e tem chute potente - completou o peladeiro surinamês.
Questionado se tinha conhecimento de tudo que cerca a vida de Adriano,
Jules disse que não, e sorriu ao ser informado sobre a agitada vida do
atacante que é um de seus ídolos.
- No problem - respondeu, rindo e desdenhando das estripulias do jogador brasileiro.
O único problema do Adriano do Suriname é tirar a lama da canela e da
camisa do seu ídolo depois das peladas. Mas, para Jules, pode ser plebeu
ou o Imperador: roupa suja se lava em casa.
Série especial conta um pouco mais sobre o Suriname
