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LEMBRA DELE? Do 'escritório' na praia, Wágner mantém a paixão pelo Glorioso

Após marcar seu nome na história do Botafogo, com títulos importantes nos anos 90, ex-goleiro curte vida de empresário na praia e torcedor alvinegro

Daniel Dutra Rio de Janeiro

Joao Garschagen/Globo Esporte
De coração alvinegro, Wágner curte a vida de ex-jogador na tranquilidade da praia de Camboinhas

O torcedor do Botafogo que conviveu com a “síndrome do quase” em 2007 e 2008 lembra dos anos 90 com um saudável sentimento de nostalgia. Principalmente quando o tempo volta à segunda metade da década. Depois de o Glorioso quebrar o jejum de 21 anos ao levantar a taça do Campeonato Carioca de 1989, os alvinegros ainda comemoraram o bi no ano seguinte e seu primeiro e único título internacional em 1993, com a Copa Conmebol.

Mas foi a partir de 1995, com a conquista do Campeonato Brasileiro, que os torcedores ficaram mal acostumados. Foi neste período que Sebastião Wágner de Souza e Silva reinou absoluto como dono da camisa 1 do Botafogo. Posição, aliás, que foi um tormento na primeira das duas temporadas em que o Alvinegro encantou a crítica com o belo futebol apresentado em campo, mas sem resultados práticos: títulos. Falharam Lopes, Max, Julio César e Marcos Leandro e Roger em apenas um ano, e foi preciso menos do que isso para que Wágner se tornasse ídolo.


Herói do título nacional, com defesas espetaculares na decisão contra o Santos, num dia 17 de dezembro que não sai da memória dos botafoguenses, Wágner ainda foi campeão municipal em 1996, carioca em 1997 e do Torneio Rio-São Paulo em 1999 em nove anos de clube: chegou em 1993, comprado ao Bangu, e saiu em 2002, quando foi para o Santo André. Ainda defendeu o América em 2003 e o Madureira em 2004, ano em que decidiu encerrar a carreira – coincidentemente numa partida contra o clube que virou o do coração. No dia 21 de março, o Tricolor Suburbano perdeu por 4 a 2 para o Botafogo, e Wágner dava adeus aos gramados. O ex-goleiro ainda arriscou a sorte como treinador do São Cristóvão e do Boavista, mas trocou o mundo do futebol pela vida de empresário.

Chegou a ter uma pequena frota de táxi, mas hoje, aos 40 anos, é dono do quiosque Maza, na praia da Camboinhas, em Niterói, e literalmente tem o seu escritório na praia, sem precisar de janela para admirar o belo visual do local.

“Persona non grata” para a torcida do Santos, Wágner brinca até mesmo com a polêmica atuação do árbitro Márcio Rezende de Freitas na decisão do Brasileirão 95

– “Foi o melhor árbitro que eu já vi na vida” – antes de falar sério e lembrar que o ex-árbitro prejudicou o Botafogo na decisão da Copa do Brasil em 1999. E foi em um clima descontraído que o ex-goleiro e alvinegro falou com a reportagem do GLOBOESPORTE.COM sobre carreira, vida de empresário, títulos, gestões do clube e, entre outros assuntos, a vontade de ser presença marcante em General Severiano.





A VIDA PÓS-FUTEBOL

“Minha caminha depois do Botafogo foi curta. Fiquei três meses no Santo André para disputar um torneio de times do interior. Joguei pelo América no Estadual de 2003, e no ano seguinte atuei pelo Madureira, mas foi quando eu desisti de jogar. Ainda fui treinador do Boavista e do São Cristóvão, mas desisti de tudo depois que entrei como sócio no quiosque. Estou aqui há dois anos, e o Maza foi quem me deu a oportunidade de aprender a trabalhar nessa área de comércio. Mas há aproximadamente cinco meses eu venho tocando sozinho. Ele já estava cansado, tinha muito tempo de praia e precisava curtir. Chegou a uma idade em que não queria mais trabalhar, aí me passou a parte dele. Hoje sou o único dono e felizmente dá para seguir a vida, ganhar o pão de cada dia sem ter problema com nada. Por enquanto não penso em voltar ao futebol”.

ESCRITÓRIO NA PRAIA x MUNDO DA BOLA

“Eu não trocaria, mas se fosse para vestir a camisa do Botafogo eu consideraria conciliar. O único local onde eu me sentiria à vontade para voltar a trabalhar com futebol seria lá. Pelo clube eu abriria novamente o meu coração. É um lugar que eu já conheço, onde acho que poderia fazer um trabalho legal. Mas deus sabe a hora, e eu não estou forçando a barra, até porque não preciso. A minha vida está bem tranquila e não preciso tirar o espaço de ninguém para estar no meio do futebol. Para ficar tentando aqui e ali, prefiro ficar no meu canto. Se um dia eu puder colaborar, vou sorrindo e de braços abertos. Se não pintar oportunidade, vou continuar torcendo pelo Botafogo como sempre torci”.

A SAÍDA DO BOTAFOGO

“Eu deveria ter ido embora mais cedo, até mesmo para dar uma sequência diferente à minha carreira. Acho que passei do momento de deixar o clube, mas eu me identificava e conseguia renovar os contratos com tranquilidade. Ainda assim, não me arrependo. É uma casa que gosto muito, mas não frequento até porque não tenho muito tempo. Mas a minha identificação com o Botafogo é total, como se fosse um casamento para durar a vida toda. Espero um dia poder voltar a comparecer, até mesmo trabalhar lá. Não vou esconder que tenho essa vontade, mas tudo tem o seu momento certo”.

A ERA BEBETO DE FREITAS

“Falo por mim e por outra pessoa que eu gosto muito, o Sérgio Manoel, que passou por algo que me chateou muito. O Botafogo ainda estava disputando a segunda divisão (em 2003), e ele foi assistir a um jogo com os filhos vestidos com a camisa do clube, mas foi barrado. O Sérgio foi um ídolo da torcida, que gostava muito dele. Acontecer algo assim naquela gestão me fez ter medo de aparecer no estádio e passar por algo parecido”. “Mas eu ainda estive num evento para comemorar um aniversário do título brasileiro, e a maneira como o ex-presidente me cumprimentou não foi agradável. Parecia que eu estava lá fazendo um favor. Fiquei muito constrangido e prometi a mim mesmo que nunca mais voltaria ao clube enquanto ele estivesse lá. Na entrada quase não nos deixaram entrar, pois não estávamos usando uma credencial qualquer. Fomos barrados na entrada e ficamos à espera de uma pessoa que pudesse liberar a nossa entrada. Isso aconteceu num jogo contra o Atlético-PR, no Caio Martins. Ligaram me convidando para ir, mas eu também acabei passando por isso. Espero que essa gestão faça diferente”.


CARLOS AUGUSTO MONTENEGRO

“O Montenegro era a única pessoa com que eu tinha contato, e ele só não fez mais por todos aqueles atletas que participaram do seu ciclo porque não tinha mesmo como fazer. Mas a qualquer momento que eu ligar para ele ou procurá-lo, serei muito bem atendido e recebido. É claro que na gestão passada, do ex-presidente, o Montenegro tinha um limite. Talvez por isso ele não tenha feito mais pelo clube, por não ter carta branca para realizar tudo aquilo que, tenho certeza, gostaria”.

A NOVA DIREÇÃO

“Com essa nova direção eu acho que pode ser que aconteça uma reaproximação, que exista a satisfação de frequentar o clube. Eu não me sentia à vontade com a gestão passada e me afastei mesmo, mas este ano, logo no primeiro jogo do time, eu fui muito bem recebido pela nova diretoria. Fui a Bacaxá assistir ao jogo contra o Boavista (vitória alvinegra por 2 a 1) e tive uma recepção muito bacana. O próprio presidente (Mauricio Assumpção) estava lá, me cumprimentou e me chamou para ficar no espaço reservado ao Botafogo. Por isso eu realmente espero ter esse espaço dentro do clube e no Engenhão, porque será uma satisfação muito grande. Eu sou botafoguense, meu filho também, tenho um bandeirão do clube no quiosque e não vejo por que esconder isso. Assim, podem ter certeza de que vocês ainda vão me ver muitas vezes torcendo no estádio”.

GOL MIL DO TÚLIO PELO BOTAFOGO

“Sinceramente, eu torço muito para que isso aconteça. O Túlio é um cara que merece, ainda está fazendo muitos gols e é um baita de um artilheiro. E torço também porque ele é um dos que são apaixonados pelo Botafogo. Daquele grupo de 1995 não tem ninguém que vá falar mal do clube, dizer que não gosta. Tivemos problemas de salários atrasados, alguns têm ações judiciais até hoje, mas mesmo assim qualquer uma daquela gestão do Montenegro está à disposição para ajudar, se tiver que fazer algo pelo clube”.

CONQUISTAS MAIS MARCANTES

“Dois grupos marcaram muito. Em amizade, vontade de ganhar e união. Muita gente acha que em 95 havia problemas com o Túlio, mas ele sempre foi um cara de grupo. Se alguém não gostava dele, era pessoal, porque no elenco ele era muito bem aceito por todos. Em 97 o grupo que disputou o Estadual era muito forte também. Foram duas épocas em que era fechar e falar ‘vamos ganhar’, mas demonstrando de verdade essa vontade ganhar”. “O Paulo Autuori chegou e polemizaram porque ninguém o conhecia. Mas ele começou a trabalhar, a conversar com a gente, mostrar coisas também extra-campo. Para mim, ele e o Joel Santana foram com pais. Sabiam falar na hora certa e mostrar o caminho. Nós seguimos e deu certo. Foi uma aceitação de ambas as partes. O grupo aceitou ambos os treinadores, e eles fizeram seu papel certinho”.

MÁRCIO REZENDE DE FREITAS

“Foi o melhor árbitro que eu já vi na vida, e ainda acho que o Túlio não estava impedido”, brinca Wágner, para depois falar sério e lembrar dos erros decisivos contra o Botafogo. “Ele deixou de dar um pênalti no Bebeto, já no fim do jogo (contra o Juventude), e anulou dois gols legítimos do Rodrigo. Acabou que foram lances polêmicos no primeiro jogo da decisão da Copa do Brasil de 99, assim como na final do Brasileirão de 95. Mas depois ele apitou vários jogos nossos e não houve pressão, qualquer tipo de problema, em qualquer lugar. Mas se você erra em momentos decisivos, acaba ficando mais marcado, da mesma forma se acertar. Quando não era partida decisiva, ele não errava ou o erro passava despercebido. Mas em decisão isso não acontece”.

PERSONA NON GRATA NO SANTOS

“Depois daquele 17 de dezembro de 1995 nós fizemos alguns jogos lá, e a recepção era bastante ‘calorosa’ quando eu chegava. Era complicado. Até um relógio jogaram dentro de campo. Guardei ao lado da trave, mas acabei esquecendo de levar o ‘presente’ para casa”, revela o ex-goleiro, lembrando da histórica defesa em chute de Geovani. “.Houve várias outras difíceis, mas posso dizer aquela que foi a mais importante, a que mais marcou os botafoguenses”.

ELENCO DESFEITO PARA A TAÇA LIBERTADORES 1996

“A dificuldade financeira era muito grande. Fomos campeões brasileiros com praticamente três meses de salários atrasados, e o Montenegro fazia de tudo, às vezes tirava do próprio bolso para dar uma aliviada no grupo. Ele, o Antônio Rodrigues e outros dirigentes. Então, qual era a situação imediata? Vender jogadores. Então foram o Beto, o Sérgio Manoel... O Leandro Ávila, que era um baita de um jogador, teve de voltar para o Vasco. Eles iriam fazer muita falta, mas não puderam continuar no clube. O Botafogo nunca havia sido campeão brasileiro, e a valorização foi grande, todo mundo queria o que tinha de melhor. Mesmo com quem ficou, é muito difícil montar um novo grupo, recomeçar um trabalho”.

POLÊMICA SOBRE PROBLEMA DE VISÃO

“Isso me deixou bastante chateado, ainda mais sabendo a maneira como foi o assunto surgiu. Não vou trazer o nome da pessoa à tona, mas ela soube que me criou um problema muito grande. Fui a vários médicos, fiz todos os exames que precisava e mostrei os resultados. Provei que não tinha nada daquilo. Até hoje eu dirijo à noite, não tenho problema de leitura e nunca precisei usar óculos. Não sei por que criaram isso, até porque nunca fiz mal a ninguém. Mas quem inventou isso teve lá os seus motivos, e hoje deve estar recebendo o carinho do Papai do Céu da maneira que deve ter”.