Terra de Seedorf: um pouquinho de Brasil com Michel Teló e Tropa de Elite
Número de brasileiros cresce no Suriname, música e filmes nacionais fazem sucesso, e capital Paramaribo revela mistura de povos e costumes
O Suriname é uma aquarela do Brasil pintada por quase 40 mil
brasileiros que estão no país de pouco mais de meio milhão de
habitantes. Mas, em vez dos versos “isso aqui, ô, ô, é um pouquinho de
Brasil, iá, iá”, da música de Ary Barroso, o hit (óbvio) que toca na
rádio local é “Ai, se te pego”, do onipresente Michel Teló. Em primeiro
lugar na parada de sucesso, porém, está Clarence Seedorf.
Ao acertar com
o Botafogo, o jogador de 36 anos aproximou ainda mais dois países que
fazem fronteira e têm laços estreitos no futebol, no comércio formal,
informal e carinho mútuo. A terra natal do novo camisa 10 do Alvinegro é
mais do que um pouquinho de Brasil. E, Teló à parte, o produto
universal ali é o futebol.
Ao desembarcar no Aeroporto Internacional Johan Adolf Pengel em um dos
quatro voos semanais da Surinam Airways saídos de Belém, a primeira
sensação é de extremo calor, um clima abafado que nesta época do ano
provoca fortes pancadas de chuvas. Entre os passageiros, a maioria é de
brasileiros do Pará, muitos deles rumo ao garimpo do ouro, outros
residentes ou comerciantes do país e, entre as mulheres, algumas que
fazem trabalhos temporários em clubes surinameses.
Em uma rápida pesquisa informal, e por experiência própria, é comum
ouvir, por mais de uma vez, a pergunta sobre que país é esse da África,
quando o Suriname fica ao norte do Brasil, fazendo fronteira com Pará e
Amapá. No país, a língua oficial é o holandês, além do dialeto local e
inglês. Mas, a cada dia, o português é mais falado pelas ruas.
Olhar
infantil: menina surinamesa divide espaço com varal improvisado em uma
casa humilde na capital Paramaribo. (Foto: Janir Júnior /
Globoesporte.com)
Com o tráfego na mão inglesa, uma estrada de mão dupla do aeroporto até
Paramaribo é margeada por humildes casas de madeiras. Na viagem de uma
hora até a capital, onde residem quase 70% da população, é possível ver
os tons da miscelânea que vão muito além da aquarela brasileira.
Chineses, índios, “blackmen”, hindus, javaneses, indianos, holandeses,
surinameses quilombolas (descendentes de escravos) são algumas das
nacionalidades que formam uma mistura de costumes que vão do comércio à
alimentação, do futebol à prostituição.
A reportagem do GLOBOESPORTE.COM esteve no Suriname, onde nasceu
Clarence Seedorf, chamado pelo primeiro nome no seu país. Logo aos dois
anos, o menino de origem humilde fez o caminho natural para o surinamês
que sonha jogar futebol: deixou Paramaribo e foi para a Holanda. Mas
jamais esqueceu as raízes. Plantou sementes. E colhe sorrisos de
crianças e mães de bebês beneficiados por projetos sociais de sua
autoria.
O Suriname conseguiu sua independência da Holanda em 1975. Cinco anos
depois, aconteceu um golpe de estado (Revolução dos Sargentos), e o
general Desi Bouterse assumiu o poder no país. Para complicar, em 1986,
os negros Maroons da floresta iniciaram uma guerrilha no interior, na
fronteira com a Guiana Francesa (que duraria até 1994).
Até 1987, o país viveu tempos difíceis, com censura à imprensa, aperto
financeiro e dificuldades até para conseguir artigos simples para a
sobrevivência. Foi quando chegou ao fim o regime militar.
Em 19 de julho de 2010, o ex-ditador Desi Bouterse voltou ao poder,
desta vez através de votação realizada pelo Parlamento eleito nas urnas.
Ele é o atual presidente do país. Bouterse foi condenado na Holanda a
uma pena de 11 anos, que pode chegar a 16, por tráfico de drogas. Mas o
líder alega que se trata de "armação política". O DEA, agência
antinarcóticos americana, classifica o país como importante conexão das
rotas de circulação de cocaína
.
Casas de madeira e cassinos
No Suriname, os únicos – e raros - estabelecimentos com três pavimentos
ou mais são os hotéis. O restante é de casas, a extrema maioria de
madeira, com variações no estado de conservação. A catedral na área do
porto de Paramaribo foi reformada recentemente e chama atenção pela
beleza arquitetônica, assim como algumas repartições públicas.
Na parte pobre, casebres com varais improvisados retratam a pobreza vista em diversas regiões de Paramaribo.
Os cassinos pipocam na capital de Paramaribo e atraem os turistas.
Muitos estão ali para fazer estágio em medicina, esportes e outras
áreas. Já existem cerca de 20 casas de jogos, e outras estão sendo
construídas. O jogo é tolerado, assim como a prostituição.
Um grande número de brasileiras – misturadas a colombianas, javanesas e
chinesas - oferece seus serviços sexuais em programas que giram em
torno de US$ 100 (cerca de R$ 200) nos chamados clubes.
- Passo uma temporada no Suriname, faço dinheiro e retorno para Belém. É
um trabalho difícil, mas uma fonte de renda fácil e, ao mesmo tempo,
longe e perto da minha cidade – afirmou uma das prostitutas que faziam a
conexão Belém-Suriname. O voo tem duração de 1h40m.
Ministérios evangélicos do Brasil proliferam no Suriname, e são misturados a templos de hinduísmo e igrejas católicas.
O número de carros aumenta a cada mês no Suriname. O motivo: os preços
acessíveis. Um Toyota, por exemplo, com poucos quilômetros rodados é
vendido por 6 mil dólares (R$ 12 mil). No Brasil, o preço do mesmo
modelo é de R$ 60 mil.
- Muitos brasileiros sonham no Brasil e realizam aqui no Suriname –
define Roy Karyopawiro, que faz o transporte de pessoas que desembarcam
no país.
O comércio é dominado pelos chineses, seja de roupas ou de alimentos.
Os brasileiros - na maioria vindos do Pará - também têm alguns
estabelecimentos, como açougue, salão de beleza e sorveteria.
- Reconhecemos as casas de brasileiros quando têm uma antena parabólica
no quintal – brincou Roy, já que a antena possibilita a transmissão de
alguns canais do Brasil.
As comidas são de culinária chinesa, indiana, entre outras, sempre com
muita pimenta. Um prato que faz sucesso é chamado de roti, com frango,
uma espécie de pão árabe com ervilha e batata com molho picante.
O Centro Cultural Brasil-Suriname oferece aulas de português e tem uma
pequena biblioteca com livros de autores brasileiros. Recentemente, foi
realizada uma festa junina no espaço. Também são exibidos filmes. E fica
fácil imaginar os maiores sucessos.
- Eles gostaram muito de "Cidade de Deus" e "Tropa de Elite" – revela a carioca Marinalva Romeo.
Nascida em Marechal Hermes, ela reside no Suriname há mais de 20 anos, é
uma das responsáveis pelo Centro Cultural e dá aulas de português.
- Existe o interesse em aprender a nossa língua – diz Marinalva.
Muitos brasileiros que chegam a Paramaribo seguem em um avião de menor porte para cidades vizinhas em busca do garimpo do ouro.
O transporte público no Suriname é precário. Existem poucos ônibus
disponibilizados pelo governo, o que faz com que a maioria seja
particular, com passagens mais caras, porém um pouco mais de conforto.
As escolas públicas funcionam apenas na parte da manhã. Os bancos
encerram o expediente às 14h, e as repartições públicas às 15h, quando
acontece o pico do horário do rush.
A violência no Suriname não chega a ser alarmante. Em 2009, em Albina,
cidade a 150 quilômetros da capital Paramaribo, uma briga entre
brasileiros e quilombolas resultou em, pelo menos, sete mortes.
Atualmente, alguns brasileiros do garimpo têm se envolvido em confusões
que também resultam em agressões e mortes.
O crack circula em algumas regiões, já a maconha é bastante consumida
no Suriname. Os ‘blackmen’ plantam e fazem uso da erva sem sofrerem
maiores restrições, porém o tráfico é combatido pela polícia local.
Mas é o futebol que é oferecido em cada esquina. Pelas ruas, é comum
ver pessoas com camisas de times europeus. Um anúncio da cerveja Parbo
Bier, fabricada no Suriname, faz menção ao futebol, com amigos em um
bar, um deles com a camisa da seleção brasileira e outro com uniforme
que lembra o do Flamengo. Cervejas fabricadas no Brasil também são
vendidas em mercados e restaurantes.
O Campeonato Brasileiro está sempre na pauta de programas de rádio e
televisão. Toda segunda-feira, inclusive, o canal ABC tem um quadro
somente sobre o futebol do Brasil.
Pelas ruas, traves improvisadas, chão de terra batida, pés no chão e
uma bola. Estão garantidas a diversão e a pelada dos surinameses.
Ao tomar conhecimento da presença de um – ou mais um – brasileiro no
Suriname, o assunto invariavelmente acaba em futebol. Taxistas,
comerciantes e funcionários do hotel citam Ronaldo, Adriano e até Vagner
Love. Mas, no momento, o assunto principal é a chegada de Seedorf ao
Botafogo.
- Clarence é um grande jogador, orgulho do nosso país – diz um taxista.
Pouco depois de ouvir notícias de esporte, o taxista muda de estação.
"Ai se te pego" entra no dial. Na terra de Seedorf, o Brasil se faz
presente, com diferentes representações e manifestações, da música ao
futebol, de Michel Teló a Seedorf. Tem para todos os gostos.
Série especial conta um pouco mais sobre o Suriname
A série do GLOBOESPORTE.COM conta a trajetória de Seedorf no Suriname,
berço do principal reforço do Botafogo para o Brasileirão. Até domingo,
você vai saber mais sobre a história do país, seus costumes, a paixão
pelo futebol e os projetos que Clarence apoia no país.
