Excursões no Suriname: da tragédia ao milésimo jogo do 'Deus' Pelé
Acidente que matou jogadores holandeses em 1989 ainda marca o país, que lembra com nostalgia dos amistosos de times brasileiros no local
Em décadas passadas, eram comuns excursões de times brasileiros ao
Suriname para a disputa de amistosos. Curiosamente, foi lá que Pelé,
tratado como Deus, disputou seu jogo de número mil e precisou sair
escondido por conta da multidão. O Botafogo, time pelo qual Seedorf
estreia neste domingo, conquistou um torneio em 1964 com a participação
de Nilton Santos, Zagallo, Jairzinho, entre outros. Duas décadas e meia
depois, em 7 de junho de 1989, época em que os clubes do Brasil já não
eram vistos em jogos em Paramaribo, o que seria uma festa se transformou
em tragédia. Quando se preparava para pousar no aeroporto da capital, o
voo PY764 da Surinam Airways bateu com um dos motores em uma árvore.
Em
seguida, a asa direita também se chocou e causou a queda do DC-8 de
cabeça para baixo no Aeroporto Internacional de Paramaribo. Todos os
nove tripulantes morreram, assim como 167 dos 178 passageiros. É o pior
acidente aéreo da história do Suriname. E, dentro da aeronave, estavam
jogadores que integravam uma espécie de seleção holandesa chamada
Kleurrijk Elftal (Onze Colorido, em holandês). Três atletas
sobreviveram. Ídolos da Holanda, Winter e Rjikaard não foram liberados
pelo Ajax, clube que defendiam, e, assim, driblaram a morte.
Raymon Wimpel, 63 anos, foi um dos organizadores do evento com o Onze
Colorido. No dia anterior ao acidente, o jornalista, que na época
comandava um programa esportivo na TV local, conversava animadamente com
os convidados sobre o jogo festivo. Horas depois, a notícia: o avião
caíra. Para Wimpel, sofrimento em dobro: seu irmão também estava no voo.
- Fui o representante do Kleurrijk aqui no Suriname. Na Holanda tinha
outra pessoa, que era o responsável pelo time. Aquilo foi no dia 7 de
junho de 1989. Eu não estava no aeroporto, o voo era por volta das 4h da
manhã. Coloquei uma delegação para receber o time, e meu irmão era um
dos passageiros. Decidi esperar em casa. Quando acordei, escutei o rádio
e ouvi alguém dizer que algo tinha acontecido no aeroporto. Peguei o
carro e fui correndo para lá. Um dos meus amigos disse para eu não ir,
pois não teria nada para ver. Jogadores como Winter e Rjikard não
conseguiram permissão do Ajax para vir – revelou Winpel, provando que o
destino de dois ídolos da Holanda poderia ter sido trágico.
Grandes clubes holandeses não liberaram jogadores. Com isso, o Onze
Colorido teve de ser formado por atletas do segundo escalão de times
como De Graafschap e Willem II. Das estrelas, apenas Menzo foi a
Paramaribo. Mas chegou ao Suriname separado do resto do time.
Dos 19 membros da delegação – 18 jogadores e o técnico – apenas três
sobreviveram, mas suas carreiras foram interrompidas. Edu Nandlal
(Volendam) e Sigi Lens (atacante do Fortuna Sittard), ambos de 25 anos,
encerraram suas carreiras devido às sequelas. O primeiro ficou
paraplégico, e o segundo fraturou a pélvis. Aos 20 anos, Radijn de Haan,
do Telstar, sofreu fratura em uma vértebra e foi o único a voltar aos
gramados, mas logo depois se aposentou.
- Espero que nunca mais precise passar por isso. Eram grandes jogadores
visitando o Suriname para o povo daqui ver, mas ninguém viu. Até hoje
tem impacto na minha vida. Além dos jogadores, meu irmão morreu naquele
acidente – desabafou Raymon Wimpel.
Memorial com turbinas de avião em Paramaribo lembra os mortos no acidente que abalou o Suriname (Foto: Janir Júnior / Globoesporte.com)
O acidente criou um trauma no país que se arrastou por longos anos. Um
monumento com turbinas de avião e os nomes dos mortos divide espaço com
algumas covas em Paramaribo. Jogadores com ligação com Suriname ainda
visitam o local e depositam flores.
Excursões com final feliz e milésimo jogo de Pelé no Suriname
O Botafogo conquistou o Torneio Quadrangular do Suriname, no dia 19 de
junho de 1964, depois de vencer o Robinhood (2 a 1), o Transvaal (5 a 1)
e o Leo Victor (5 a 0). Atualmente, os três times disputam a liga
nacional.
- Lembro bem, claro.Tinha 14 anos. Vi Jairzinho, Manga, Zagallo também. Foi muito legal - recordou Raymon Wimpel.
No dia 28 de janeiro de 1971, Pelé completou seu jogo de número mil em
Paramaribo, diante do Transvaal. O Santos venceu por 4 a 1, com o Rei do
Futebol marcando de pênalti. O único repórter brasileiro que fez a
cobertura foi Lemyr Martins, que recorda os momentos de devoção dos
surinameses.
Pelé levou o Brasil e o Santos ao Suriname em 71
no seu milésimo jogo (Foto: Artofpele.com)
no seu milésimo jogo (Foto: Artofpele.com)
- O estádio era sofrível, com pouca iluminação e tinha gente até dentro
do campo. Pelé era tratado como um Deus. Foi o jogo de número mil, dei a
Bola de Prata e uma camisa comemorativa preparada pela revista Placar.
Na época, o jornal O Globo fez um levantamento que apontou a milésima
partida. E foi uma grande experiência. Pelé inclusive fez um pedido para
que o Transvaal, que fora punido com suspensão de um ano por conta de
uma batalha campal em um jogo do campeonato local, fosse liberado para
disputar partidas. O pedido foi atendido. No fim da partida, o Pelé teve
que fugir por conta da multidão. Faltavam uns dez minutos para
terminar, ele bateu um lateral, correu para o vestiário e sumiu. O
Marçal entrou. Foi uma maravilha. A cidade parou e só voltou a funcionar
quando Pelé embarcou para deixar Paramaribo - recordou Lemyr Martins,
hoje com 75 anos.
Série especial conta um pouco mais sobre o Suriname
Desde quarta-feira, a série do GLOBOESPORTE.COM conta a trajetória de
Seedorf no Suriname, berço do principal reforço do Botafogo para o
Campeonato Brasileiro. O jogador fará sua estreia com a camisa 10 do
Alvinegro contra o Grêmio neste domingo, às 18h30m, no Engenhão.