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'Nunca um gerente foi tão odiado'

Entrevista com Anderson Barros


POR MARCIA VIEIRA


Rio - Avesso a entrevistas, o gerente de futebol alvinegro, Anderson Barros, 41 anos, quebrou um longo silêncio para se defender da metralhadora de críticas de torcedores e da oposição, que querem a sua cabeça a todo o custo. Acusado de fazer péssimos negócios e de contratar de forma equivocada, Anderson Barros pela primeira vez se defende de todas as críticas nesta entrevista exclusiva. Sem perder o fairplay nem titubear, por mais de uma hora o dirigente conversou com o ‘Ataque’ sobre as questões mais polêmicas envolvendo o seu nome.

Demonstrando segurança, Barros contou com serenidade a sua versão da história e revelou o quanto tem sido pesado se defender de uma ira que ele chama de descabida. A seguir os principais trechos da entrevista.

Como o senhor encara as faixas colocadas pelos torcedores que pedem a sua saída e a de alguns jogadores do Botafogo?

Anderson Barros: É uma manifestação pública, cada um tem o direito de dar a sua opinião. É muito fácil quando não se tem a consciência do que está sendo realmente feito. São atletas, profissionais que não têm como responder. É delicado. Mas é o que sempre digo para eles: se estamos fazendo o melhor, se tentamos dar o máximo, não podemos nos abater com isso, mas é lógico que dói.

A sua relação negativa com a torcida alvinegra não o preocupa?

O que a torcida pode ter contra mim a não ser o resultado? Acredito que não consigo ter uma aproximação com a torcida porque às vezes esqueço que ela é paixão pura e razão não cabe neste processo.

A diretoria tem dado apoio aos jogadores mais perseguidos pela torcida?

O tempo inteiro estamos em contato com eles. Passamos por essa situação no ano passado e tentamos passar segurança e dar tranquilidade para eles jogarem.

A pressão da torcida pode influenciar na saída de algum deles do clube?

A saída de um deles será independente de qualquer relação externa. Eu não me perdoaria de estar aceitando qualquer tipo de pressão. Só se fosse algo bom para o clube e para os jogadores, mas ninguém está pensando nisso.

O ex-presidente Montenegro o acusou de preferir contratar o Loco Abreu ao Dodô, que receberia bem menos. É verdade?

Primeiro quero ressaltar que O Montenegro foi o comandante do clube em 95, quando fomos campeões brasileiros, e merece da minha parte respeito. Como ex-presidente, ele tem direito de criticar o profissional, mas não de questionar o homem. Isso é muito delicado.Em segundo lugar, optamos por não contratar o Dodô depois de uma conversa com o André Silva (vice de futebol), o presidente e o Estevam Soares. As questões que envolviam o Dodô e o Abreu não cabem no mérito. Não existiam distâncias significativas. Não contratar o Dodô foi uma opção. Era um direito que cabia a nós julgar. Se erramos ou não, só o tempo vai dizer.

O clube tirou dinheiro do fundo, que contrata garotos, para trazer o Abreu?

A Companhia Botafogo foi criada para ajudar o clube a contratar atletas até 24 anos, por meio de pareceres técnicos. Em momento algum, em situação alguma, a CPE (Companhia de Participações Esportivas) tomou qualquer atitude contrária ao que foi pré-determinado anteriormente. Dizer isso é injusto até mesmo porque a vinda do Abreu teve muito mais a ver com questões salariais do que qualquer outra coisa. Além disso, a vinda dele não tem nada de absurda.

Este fundo foi usado para contratar algum jogador do atual grupo?

A CPE nos ajudou em um momento em 2009 e na aquisição dos direitos econômicos do Caio. A gente não tinha como adquirir os direitos dele e a CPE nos ajudou a ter o Caio aqui. Foi um excepcional negócio porque o garoto tem um futuro grande.

É verdade que o meia Eduardo estaria jogando porque faz parte do fundo?

Quando chegamos ao clube, ele já fazia parte do grupo. O Eduardo foi comprado pelas empresas Ability e MFD. Além disso, ele começou o Carioca como titular por decisão exclusiva da comissão técnica.Veio outro treinador, o Joel Santana, que fez esta opção e deu uma oportunidade ao rapaz. Qualquer coisa ao contrário disso passa a não ser correto.

O que o senhor tem a dizer sobre as acusações de que o clube está entregue nas mãos de empresários?

Isso é muita leviandade. A Ability, por exemplo, que tinha uma relação ótima com o Botafogo, e todo mundo diz que eu tirei, tem relação com a gente apenas com três jogadores: Somália, Eduardo e Túlio Souza, que não são da nossa época. O Loco Abreu veio de fora, e o Herrera é do Walter Cirne. O Eduardo Uram tem representação de dois jogadores, Jorge Luiz e Júnior. E o clube é dono de 70% dos direitos econômicos dos garotos que têm contrato de cinco anos. Antigamente os jogadores estavam centralizados (nas mãos de empresários), mas hoje não, estão dispersos.

Por que motivo o senhor é tão odiado?

Eu não consigo acreditar que seja só por incapacidade. É muita raiva para cima de um gerente de futebol. É uma ira descabida. Eles só me atacam, exclusivamente! Eu tenho algumas respostas, mas as guardo comigo.

Esta clima adverso tem interferido de alguma maneira na sua vida pessoal?

É logico que isso te atrapalha no dia a dia, mas eu tenho conseguido separar. Quem mais sofre é a família, é a minha mulher, porque ela vê tudo o que acontece e torce muito por mim. Ela participa disso, é a parte mais complicada, mas estas pessoas não conseguem entender isso. Mas faz parte, é o ônus que você tem que pagar. O importante é que tenho a consciência tranquila de que nunca fiz nada errado. Eu erro como qualquer pessoa, mas não cometo erros premeditados. Não fiz nada para prejudicar ninguém e nem para me beneficiar. Consigo chegar todos os dias na minha casa, brincar com o meu filho, deitar na minha cama e dormir.

O senhor acredita que estas críticas tenham data para acabar?

Acredito que tudo só acaba ou começa com muito trabalho. A vida nos ensina que 99% de tudo aquilo que a gente faz é transpiração e 1%, inspiração. Estamos fazendo tudo que pode ser feito. Mas tudo vai ser refletido dentro de campo.

O senhor chegou a pensar em sair durante os momentos de maior pressão?

Em nenhum momento, até porque as pessoas mais importantes sempre estiveram do meu lado.