por Sidney Garambone
Um dos filmes mais lindos feitos no Canadá é “O declínio do Império Americano”. A continuação “Invasões Bárbaras” consegue ser ainda mais emocionante e profunda. Trata de relações humanas. De perdas e generosidade. A direção é de Denys Arcand.
E quem é o diretor do declínio do império de Adriano? Dunga, Mourinho, Adriano ou algum personagem desconhecido do grande público?
Dunga não é.
Adriano estava no salão dos rejeitados de 2006. Mas o treinador da Seleção resolveu reconvocá-lo e, aos poucos, foi apostando na ressurreição do artilheiro. Foram 12 jogos e dois gols. Pouco. E na última aparição, contra a Irlanda em Londres, atuação apagada e substituição.
Mourinho também não.
O técnico português do Internazionale de Milão foi duro com alguns atrasos e indisciplinas, mas sempre que podia relacionava Adriano entre os titulares. De preferência ao lado de Ibrahimovic, então jogando no time italiano. “Eu sempre disse ao Mourinho que esta dupla seria terrível para qualquer defesa”, relembra o ex-companheiro e amigo Maicon.
Por exclusão, o culpado é o próprio Adriano?
Quem somos nós para punir e acusar alguém maior de idade e dono da própria vida. Amigos mais próximos, e profissionais que lidam com Adriano desde a tenra infância na Gávea, garantem que o Imperador sempre foi um plebeu humilde, doce e esforçado.
Mas o que se passa dentro da cabeça de Adriano? Será que ele mesmo sabe? Será que os amigos de infância sabem?
Vampirizado por bajuladores, Adriano vive eterna angústia e solidão, por mais que esteja numa festa de arromba. Em busca de ajuda, talvez tenha batido em portas erradas. Estabeleceu pactos perigosos. Virou refém de situações esdrúxulas para um milionário bem-sucedido.
Sem querer, tornou-se um exemplo de um Brasil arcaico. Sempre perdoado. Desde o brilhante hexacampeonato, ele vem alternando ausência de treinos, mágoa e descompromisso com quem paga seus salários. Talvez por não precisar mais destes salários. Talvez por achar que o paternalismo nacional não teria limites.
Porém, até a apaixonada e tolerante torcida do Flamengo andou perdendo a paciência. A multidão dava amor ao seu monarca e via o silêncio em troca. E Dunga se viu acuado. Como exibir e cobrar a tal coerência de seus comandados se Adriano fazia tudo ao contrário.
O Brasil arcaico é aquele que não é punido. Que avança o sinal e xinga quem reclama. Que anda na contra-mão e quebra o retrovisor dos outros. Que fura fila. Que rouba a previdência. Que aceita o roubo e a incompetência. Que está se lixando para o consumidor. Mas nunca é punido.
Hoje, ninguém tem pena de Adriano. É uma pena.