Ex-zagueiro, que parou por problema no coração, foi determinante no último vice alvinegro e destaca que episódio o fez crescer e ver a vida diferente
Os meios até são diferentes, mas o produto das ações caminha para ter desfecho semelhante. Em 2009, o então zagueiro Emerson marcou um gol contra (confira ao lado) que contribuiu decisivamente para o Botafogo perder a Taça Rio para o Flamengo. Semanas depois, uma bola desviada em seu corpo matou o goleiro Renan e decretou o título estadual do rival. Dois episódios infelizes que o marcaram com a torcida. Hoje, o lateral Lucas vive na pele o papel de vilão, às vésperas de um provável novo vice-campeonato do clube. Foram duas expulsões seguidas que desmontaram o time e também foram parte da eliminação na Copa do Brasil.
Na época, Emerson, que agregou o Nunes a seu nome do futebol no Avaí, tinha 27 anos, três a mais que o camisa 2. Com a sabedoria de quem superou o momento turbulento e seguiu em frente, mandou um recado ao ex-companheiro de profissão: levante a cabeça e não desista.
- A primeira coisa que ele tem de lembrar é que já é um vitorioso. Pense em quantos gostariam de estar no lugar dele e não tiveram a capacidade. É normal ficar triste, todos já passaram por uma situação negativa na carreira, mas ter de dar continuidade, erguer a cabeça. Aquele gol contra me deixou triste, magoado, era o Maracanã lotado, e a imprensa exagerou no outro gol, que não foi contra e formou a opinião da torcida.
Mas tudo voltou ao normal e vivi outros tantos momentos bons que até que passaria por tudo de novo. Mesmo com a parte da torcida pegando no meu pé, isso me fez crescer, sabe? Adorei jogar no Botafogo, fiz amigos, foi muito importante ter passado pelo eixo-Rio-São Paulo, independentemente de qualquer problema - afirmou o hoje auxiliar do Avaí, cuja falha no coração, detectada em 2011, o aposentou precocemente.
- Isso é a maior prova de que tudo o que eu enfrentei não era tão grave. Futebol é minha paixão e eu jogava pela minha família, meu filho (Arthur) está com dois anos e minha esposa (Kátia) me fazia não temer parar de jogar dizendo: "prefiro um marido vivo a um atleta morto". Lucas tem de saber que, em casa, ele vai ser sempre o ídolo e o herói e que outras pedras ainda vão aparecer na caminhada dele. Ter fé em Deus e se apegar em quem você confia é fundamental - frisou.
Acaso ou não, o lateral do Glorioso verá sua família crescer em breve ao ter o primeiro filho, já que a noiva, Bruna, está grávida, mesmo cenário da esposa de Emerson àquela altura.
Dívida financeira e crítica a Estevam
As lamentações de sua passagem ficam por conta apenas da dívida de FGTS do clube carioca - que pagou o acordo de rescisão, em 2010, mas o ignora ultimamente, segundo relata - e da postura do técnico Estevam Soares, que disse não estar disposto a escalá-lo em meio às vaias.
- O Ney (Franco, técnico em 2009) tinha a convicção do que fazia e me mantinha tranquilo quando não havia apoio da torcida. Sempre me deu apoio, mesmo durante o Brasileiro em que não fomos bem (salvou-se do rebaixamento na última rodada). Infelizmente, o Estevam pensava diferente e não me aproveitava no time titular por causa das críticas. Acontece, acho que não queria ficar mal com a torcida. Aí, recebi a proposta do Avaí e houve a identificação - comentou.
Hemerson Maria (técnico interino) e Emerson Nunes, agora auxiliar do Avaí (Foto: Alceu Atherino / Divulgação)
Segundo o ex-zagueiro, o instinto fez com que Lucas, que curiosamente também havia feito um gol contra há um mês, na semifinal da Taça Rio, contra o Bangu, colocasse a mão na bola no duelo com o Vitória, quarta-feira passada, ainda na etapa inicial, causando seu segundo cartão vermelho - o anterior, fora por falta dura no segundo tempo do primeiro jogo da final contra o Flu. Na próxima, com a experiência, ele não fará o mesmo. Mas está longe de condenar a atitude.
- Há coisas que só se aprende com o tempo. É uma situação que já não vai se repetir. A vontade era tão grande de evitar o gol que, pela força do instinto, se prejudicou e, consequentemente, acabou prejudicando a equipe. Mas errou tentando fazer o melhor, tentando salvar o Botafogo. No futebol, principalmente de hoje em dia, se manter no 11 contra 11 é a melhor aposta.
Ao descer para o vestiário inconsolável, ambas as vezes, no Engenhão, o lateral ouviu manifestações de apoio da torcida, que eventualmente reprovava algumas atuações, mas enxergava potencial no jogador. Até nas redes sociais há quem levante o moral dele.
Lucas em raro momento no campo, na atribulada
semana (Foto: Fernando Soutello / Agência Estado)
semana (Foto: Fernando Soutello / Agência Estado)
Mesmo com a contratação de Lennon, do Vila Nova, recuperar Lucas virou um projeto particular do técnico Oswaldo de Oliveira, que deve escalá-lo no dia 20, frente ao São Paulo, em casa, pela estreia do Brasileirão. E, claro, há um fio de esperança quanto à virada sobre o Tricolor, por pelo menos três gols de diferença, que devolveria de imediato o sorriso ao rosto de Lucas, suspenso.
Na posição, o jovem Gabriel, volante de origem, entra na fogueira. Botafogo e Fluminense medem forças mais uma vez às 16h (de Brasília) deste domingo.
