Marcos Penido e Miguel Caballero
RIO - O técnico campeão carioca numa versão inédita: fã de grandes atores americanos, mostra-se conhecedor de cinema e dá uma até de sociólogo, ao traçar um rápido perfil da sociedade japonesa a partir de sua experiência morando no Japão. Na entrevista, Joel cria novas frases e, claro, fala muito de futebol: dos títulos, de derrotas marcantes na carreira, e admite pela primeira vez que se arrependeu de sair do Flamengo em 2008 para dirigir a África do Sul.
Você pareceu magoado com a demissão na África do Sul...
JOEL SANTANA: Não fiquei magoado. Fiquei aborrecido, porque, se eu soubesse o que ia acontecer, eu não sairia do Flamengo. Aquilo foi uma coisa que me destemperou. Perdi o foco, perdi aquele jogo maldito (para o América-MEX). Aquele time ridículo, do gordinho (Cabañas). O time perdeu o foco, eu perdi o foco, a torcida também. A gente ia ser campeão. Se eu tenho uma bola de cristal, eu não ia.
Por que foi demitido?
Mudou a cúpula, mudou o presidente da federação. Todos da cúpula que trabalhavam comigo saíram.
Ficou surpreso quando Parreira voltou?
Não, isso é do futebol. Seria uma burrice eles mudarem todo o projeto a dez meses da Copa. A volta do Parreira foi uma continuidade.
Não ficou a sensação de apenas ter esquentado o banco para o Parreira?
Não, de nenhuma maneira. Eu sou muito bem resolvido. Comecei em 1981 como técnico de juniores, em 1986 no profissional. Não me abala.
Você tem boas relações com todos os quatro grandes do Rio, com diretores, jogadores, com a imprensa. Você é muito político?
Não é isso. Eu sou o que represento. Erro muito. Quando sinto que vou dar uma topada, peço conselhos. A amigos, jogadores. Por exemplo: o Roberto foi meu jogador no Vasco. Com o Eurico, também tenho ótima relação. E não é só aqui no Rio. Em São Paulo, no Inter, na Bahia... Eu gosto de deixar a porta sempre encostada, nunca fechada. Mesmo onde não fui campeão, tenho amizade. Às vezes, você chega no clube na hora errada. Comigo foi assim no Corinthians, no Internacional, no Fluminense em 2003...
Sua decisão de não ir para o Flamengo agora foi pensando em não ir no momento errado?
Aí não foi isso. Foi uma coisa de sentimento. Esses rapazes passaram por cada coisa, o 6 a 0... Quando eu cheguei, disse aquela frase: "Agora a festa vai começar, chegou o último convidado". Aí, no dia da festa, o cara que fez a festa, que conseguiu, trocou de time? Isso não é legal... não é legal... não cai bem para mim. Por respeito às duas agremiações. Sofri dois ou três dias, na dúvida...
Dizem que você ligou para três jogadores do Flamengo, que disseram para você não ir...
Pelo contrário, pelo contrário. Lá dentro, há jogadores com quem tenho amizade, queriam que eu fosse.
Qual foi o título estadual mais marcante?
Difícil, cara...
Não é possível que não tenha um ou outro, Joel...
Mas é. Cada título tem uma história. Em 1997, o outro no Botafogo, levei um grupo que andava comigo (Aílton, Djair, Pingo...). Ganhamos 11 jogos seguidos no primeiro turno. No Flamengo, em 1996, eu tinha ganhado um título em cima deles no ano anterior. Era um time meio maluco, mas encaixou. No Fluminense, em 1995, era um time catado. Pegamos o Ronald no Americano, o Lima no Sport, Sorlei no Coritiba, todos reservas. Rogerinho, Lira e Djair estavam condenados no clube... O Renato estava morto. Tirei ele da catacumba, limpei ele, levei para Friburgo... Cada título é diferente.
O campeonato de 1995 deu ao Renato o apelido de "Rei do Rio"...
Se ele quiser ser príncipe, dou um lugar pra ele no reinado que eu tenho aqui (risos). Ele só quer ganhar, não quer perder, pô. Essa ele perdeu.
Você sempre se deu bem com a imprensa. Por que a relação do Dunga com os jornalistas é de confronto, beligerante?
Primeiro, ele tem três anos e meio (de profissão), eu tenho 30. A vida vai ensinando. Aprendi a não me destemperar. Você tem que estar preparado para os dois lados da pergunta: o feio e o bonito. O que eu tenho que fazer? Tenho que te conquistar. Você sair daqui e pensar: "Puxa, eu fiz uma baita matéria com o Joel. O cara é legal, o cara é exótico, bate papo, brinca, joga uma piada ali..." Para não ficar uma coisa chata. Estamos aqui há mais de 30 minutos, e achei que só passaram cinco. Não é questão de ser fanfarrão, folclórico, é quebrar a conversa...
Jornalista fala muita besteira sobre futebol, sobre tática?
(afirmativo) Sabe por quê, sabe por quê? Eles não vêm ver treino. Ver jogo é muito fácil. Não é bem assim. Entro no jogo e vejo se está de acordo com o que pensei. E tenho um plano B, tem que ter. A pior coisa no futebol é o adversário te pegar no fator surpresa. Mas não dá para querer analisar um jogo pela televisão, só. Isso se aprende com o tempo.
Ao comentar como o Engenhão podia ser mais aproveitado, você citou os EUA como exemplo. Explique melhor...
O americano tem essa cultura do show. Ele sabe onde atacar, fazer o espetáculo. E não é só no futebol, no esporte. Um exemplo é o Tom Hanks, o contador de histórias. Ele ganhou três Oscars, cara. Você olha para ele e não leva fé no cara. Como que ganhou três Oscars? É estar no momento certo no lugar certo. Fez três filmes que lhe deram três Oscars.
De quem você gosta no cinema?
Você vê o Denzel Washington. Puta ator! Trabalhou que nem um filho da mãe, só veio ganhar um Oscar há dois ou três anos. E vai ver os filmes dele. Todos são bons demais. Tem bons artistas que são assim, mas demoram muito para ganhar. Quer saber um? O John Wayne. Trabalhou a vida toda, o grande caubói americano. Nunca ganhou um Oscar. Sabe como ele ganhou o Oscar? No filme em que ele botou uma venda nos olhos. Uma merda o filme ("Bravura Indômita"). Ele deve ter pensado: "Pô, se eu tivesse que botar uma venda pra ganhar o Oscar, tinha colocado há 40 anos"... Outro, o Clint Eastwood. Quando ele puxava aquele revólver, aquele 44, eu não acreditava. Agora você vê, o Sean Connery. O cara está velho, mas continua falando bonito. É o grande 007. Você vê o 007 e vê o Sean Connery. Não esse lourinho que está aí hoje, fazendo uma força danada. O cara é bonitão, beijando aquelas mulheres, você entrava no cinema e queria beijar também. É isso, tem que saber aproveitar o talento que cada um tem.
É por isso que você quer escrever um livro sobre sua vida?
Pretendo, sim, contar o que foi minha vida, minha história, até chegar hoje. Bastidores, coisas de que ninguém tem conhecimento. Narrar cada título, para vocês tirarem as conclusões. Tenho que falar, lembrar de tudo.
Vai assistir à Copa em casa?
Espero. E aposto no Brasil. A Espanha vem muito bem, mas falta camisa. Uma seleção que vi jogar e acho que pode surpreender é a Sérvia. A Alemanha tem prestígio. A Itália é sonsa: entra mal e vai bem. A Inglaterra tem um trabalho de quatro anos, mas não está tão bem. A França caiu muito, a Argentina é a Argentina.
E taticamente?
Vão jogar basicamente de dois jeitos: com quatro no meio, em forma de losango, ou no 4-2-3-1, que é o esquema que todo mundo está usando. Só a Alemanha, que joga num 4-4-2 mais clássico, com dois centroavantes enfiados. Pretendo ver a Copa em casa.